quinta-feira, 9 de julho de 2015

Lady Susan, Jane Austen (sem spoilers)


Título: Lady Susan
Escritora: Jane Austen (Inglaterra)
Ano de Publicação: 1871
Editora: Pedrazul
Páginas: 111
Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ 


Lady Susan é uma viúva de 35 anos cuja ambição é arranjar um bom casamento para si mesma e outro para sua filha, Frederica. Considerada por todos bela, educada e sofisticada, Lady Susan esconde uma personalidade extremamente sagaz e manipuladora, que não hesita em fazer o necessário para chegar onde quer. 

Quem acompanha o canal e o blog há um tempo sabe que Jane Austen é minha escritora favorita. Como já tinha lido seus seis romances principais, iniciei a leitura de Lady Susan reticente, morrendo de medo de me decepcionar. Felizmente, fui mais uma vez surpreendida pela genialidade de Jane Austen, já que Lady Susan é uma história extremamente inteligente, que tece fortes críticas à Inglaterra do Século XIX. E o que mais surpreende é saber que Jane Austen escreveu essa história antes dos seus 20 anos!

Lady Susan é escrito na forma epistolar, ou seja, na forma de cartas que os personagens trocam entre si. Esse foi um gênero narrativo com o qual Jane Austen brincou no início de sua carreira como escritora, mas que abandonou com a maturidade, muito provavelmente por conta da limitação de estar sempre presa a um ponto de vista. Prova disso é que o último capítulo de Lady Susan, a conclusão, foi escrito em terceira pessoa, no famoso estilo pelo qual Jane Austen ficou conhecida. Assim, aqui não encontramos diálogos (salvo quando transcritos nas cartas) e nem as típicas pitadas de ironia ao longo do texto, mas encontramos algo muito interessante: o ponto de vista, em primeira pessoa, de Lady Susan

Lady Susan, a personagem principal desse livro, é definitivamente uma anti-heroína. Por um lado, admiramos sua inteligência, sua sagacidade e sua vivacidade. É, sem dúvida, uma personagem divertida e bem humorada. Por outro lado, desprezamos sua moral distorcida, sempre voltada para o que é conveniente e útil para si mesma. É uma personagem que seduz as pessoas, especialmente os homens, com sua fala articulada, sua beleza e suas boas maneiras, mas que esconde, com muita esperteza, uma índole insensível e às vezes má.
Se tenho alguma vaidade, é de minha eloquência. O comando da linguagem acarreta consideração e estima com a mesma certeza que a admiração companha a beleza. E eu aqui tenho bastante oportunidade para exercitar meu talento, já que a maior parte do tempo é dedicada a conversas.
Ah! Que deleite observar as variações de sua atitude enquanto eu falava, ver o embate entre a ternura que ressurgia e os resquícios de desprazer. Há algo de agradável em sentimentos que podem ser manipulados com tamanha facilidade.
Com Lady Susan, Jane Austen critica a sociedade de aparências em que vivia, onde pessoas mal intencionadas, desde que se portassem bem, eram aceitas e bem vistas por todos. É uma sociedade que valoriza apenas qualidades externas, tais como beleza e eloquência, mas que pouco se importa com o que as pessoas verdadeiramente são por dentro. É um tema que Jane Austen volta a trabalhar em Mansfield Park, romance em que sua bondosa e madura protagonista, Fanny Price, é completamente obscurecida por Mary Crawford e sua personalidade mais vívida e encantadora. Lady Susan parece ser quase um esboço do que viria a ser Mary Crawford.

Confesso que uma pulga ficou atrás da minha orelha durante a leitura. Essa forma de Jane Austen de apresentar suas anti-heroínas como mulheres inteligentes, interessantes e divertidas não pode indicar uma certa ambivalência da própria escritora quanto ao tema? Será que no fundo Jane Austen não inveja e admirava essas mulheres sem escrúpulos, que não tinham medo de correr atrás do que queriam, mesmo que socialmente escondessem isso? Faz sentido, já que a própria Jane Austen sofreu muito por ser mulher, por ser escritora e por ter optado por nunca se casar. Seria natural que ela inconscientemente invejasse essas mulheres que transitavam tão bem entre as expectativas sociais e o que elas realmente queriam. Ou talvez ela quisesse mostrar para os leitores como essas anti-heroínas são, de fato, sedutoras, atraindo-os ela mesma com sua personagem. 

Como em todo bom clássico, algumas coisas ficam em aberto em Lady Susan. A obra não se esgota nunca e possibilita ao leitor várias interpretações quanto às intenções de Jane Austen. Lady Susan é um convite à releitura

Vídeo no YouTube:


     

12 comentários:

  1. Que resenha boa. Fiquei com vontade de ler! Tenho saudades de ler algo de Jane Austen.
    Gosto sempre das protagonista. Só não gostei muito de Emma.
    Quanto à sua observação em relação à autora gostar de ser um bocadinho igual às mulheres destemidas, sem medo de romper com as regras da sociedade, acho que tem alguma razão. É uma inveja boa. Aquela vontade meio obscura. No fundo, todas gostaríamos de fazer o que queremos sem ter de pensar no que os outros vao pensar. Sobretudo em meios pequenos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade, Cláudia. Todas nós gostaríamos de ser um tantinho mais ousadas do que realmente somos, não é? Sentimos uma ponta de inveja de mulheres que tem coragem de se expor, de ser quem elas realmente são, sem vergonha ou medo.
      Emma realmente é difícil de digerir. Muita gente não gosta dela. Eu sempre vi Emma como uma cabecinha de vento, uma bobinha. Fiquei muito satisfeita quando ela foi aprendendo com os próprios erros.
      Beijo! ^_^

      Excluir
  2. Oi, Duda!

    Estou lendo Persuasão atualmente, meu primeiro contato com a Jane Austen, e na edição que tenho está também essa novela da autora! Fiquei feliz com os seus comentários sobre! Espero gostar também quando ler!

    Beijos e boas leituras! :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Minha edição de Persuasão também tem Lady Susan. É aquela da Zahar, né?
      Eu adoro Persuasão. É um dos meus livros favoritos dela. Você começou sua experiência com Jane Austen pelo livro mais maduro dela.
      Lady Susan é mais jovial, mais divertido, de uma fase em que ela ainda estava brincando de ser escritora.
      Beijo, Amandinha! ^_^

      Excluir
  3. Não gostei muito dos livros da Jane Austen que li até hoje, mas estou muito curiosa para ler Lady Susan. Parece ser um livro divertido, gosto de anti-heroínas. ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você leu quais até agora, Lígia?
      Jane Austen realmente não agrada todos, mas esse Lady Susan é um dos livros mais joviais, leves e divertidos dela.
      Beijo! ^_^

      Excluir
  4. Ah... adoro Lady Susan! O primeiro livro que li da Austen foi "Orgulho e Preconceito" e detestei. Acho a protagonista insuportável, o mocinho chato, tudo enfadonho. Já esse outro me conquistou, justamente porque a anti-heroína é o oposto perfeito da Elizabeth: ela é mau caráter e egoísta, sem dúvida, mas é divertida, sarcástica, fingida, sedutora, faz o que quer e pronto. Concordo com sua colocação sobre a admiração da autora por essas personagens sem escrúpulos - elas são condenáveis, mas livres.
    Beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Michelle, eu tenho uma amiga que também odiou Orgulho e Preconceito. Ela disse que parece novela de época da Rede Globo. Risos. Eu particularmente adoro. É um dos meus livros favoritos da vida (talvez o favorito de todos).
      Eu também adorei Lady Susan. Me diverti muito com ela. E eu vejo Lady Susan em vários outros livros de Jane Austen. Em Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Srta. Bingley tem um que de Lady Susan; em Mansfield Park, é Mary Crawford; em A Abadia de Northanger, é Isabella Thorpe. Pelo visto era uma figura feminina bem comuns nos círculos sociais dela.
      Beijo! ^_^

      Excluir
  5. Hahaha... é, mais um menos isso.
    Talvez a expectativa tenha atrapalhado meu julgamento. E também faz tempo que li Orgulho e Preconceito (por isso nem tem resenha no blog). Mas Lady Susan me agradou tanto que me fez ter vontade de ler outros títulos da Austen. Quem sabe minhas próximas leituras não desempatem o placar de modo favorável para ela?
    beijo

    ResponderExcluir