domingo, 6 de julho de 2014

Vigiar e Punir, Michel Foucault


Título: Vigiar e Punir
Título Original: Surveiller et Punir
Escritor: Michel Foucault (França)
Ano de Publicação: 1975
Editora: Vozes
Páginas: 262

O sociólogo francês Michel Foucault faz, em Vigiar e Punir, uma genealogia do poder punitivo do Estado e do complexo científico-judiciário onde ele se apoia, fixando seu olhar principalmente nos mecanismos de poder que perpassam essa punição de alguém pela prática de uma conduta considerada criminosa. Genealogia, aqui, é analisar a evolução de um conceito (no caso, o Poder de Punir) ao longo do tempo. Foucault analisa, em Vigiar e Punir, os instrumentos utilizados pelo poder de punir desde a Era Clássica, marcada pela técnica dos suplícios, até a Era Moderna, marcada pela pena de prisão.

Ler Vigiar e Punir é um desafio. Primeiro porque Foucault utiliza uma terminologia própria, que muitas vezes exige pesquisa para ser bem compreendida; segundo porque o livro demanda um comprometimento emocional, já que a realidade denunciada por Foucault nessa obra é difícil de ser digerida. Daí porque Vigiar e Punir exige amadurecimento por parte do leitor, que encontrará dificuldade tanto no texto quanto na temática. Quem chega ao final, entretanto, é agraciado com uma nova visão de mundo, com uma abertura de horizonte como poucas obras são capazes de proporcionar.

Inicialmente, Foucault analisa a técnica punitiva típica da Era Clássica: o suplício. Quem já estudou a inquisição ou está familiarizado com a história das bruxas de Salém vai lembrar dessa técnica em que a tortura era aceita e até mesmo encorajada, em que a obtenção da verdade permitia a utilização de qualquer meio, em que a punição era um espetáculo público que representava o poder do soberano. Foucault fundamenta sua análise em um material vasto, que apesar de ser composto principalmente por casos ocorridos na França, abarca também alguns ocorridos em outros países europeus. 

No final do Século XVII e início do Século XVIII, entretanto, o suplício começa a entrar em decadência. Os reformadores publicamente criticam a violência dessa punição, exigindo penas mais humanas. Por trás desse discurso está uma burguesia em ascensão, que não está interessada em uma pena cruel, mas pouco eficaz. É essencial para essa nova classe social uma efetiva punição e repressão dos crimes, especialmente aqueles de natureza patrimonial. 

Por fim, Foucault analisa como a pena de prisão acabou de tornando a regra nos países civilizados, apesar de seus diversos problemas e sua eficácia duvidosa. E é nesse ponto que a genialidade de Foucault fica evidente. Para ele, a prisão tem como alicerce uma técnica de poder e controle baseada na disciplina, que é utilizada não só nas prisões, mas também nas escolas, nos hospitais, no exército e nos conventos. É assustador que, em 1975, Foucault fale de algo que é tão atual, o que demonstra o acerto de sua análise.

Esse é um livro que eu recomendo que todos leiam em algum momento da vida, apesar de sua dificuldade. Não há dúvida de que a prisão é algo em que a maioria das pessoas não gosta de pensar. O tema é polêmico e espinhoso. O que Foucault demonstra aqui é que a prisão não é algo distante de nós, como muitas vezes imaginamos, e que as mesmas técnicas utilizadas para disciplinar os presos são aplicadas também sobre nós durante toda a nossa vida. Foucault nos convida a buscar uma alternativa à pena de prisão, alertando que é preciso também encontrar uma alternativa à atual técnica de controle e disciplina social. O tema é mais atual do nunca, já que a cada dia que passa somos mais e mais submetidos e controlados por um poder invisível, por esse Big Brother que tememos, mas que nunca enxergamos. Só podemos transformar o que compreendemos e Foucault é definitivamente um Platão moderno, capaz de enxergar além das sombras que envolvem nossas vidas nessa caverna que é a sociedade contemporânea.  

Nota no Skoob: 5 de 5.

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9 comentários:

  1. Ótima resenha, Eduarda!
    Abandonei o livro pelo meio, preciso retomar!
    ;)

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    1. Obrigada, Aline!
      Eu também abandonei Vigiar e Punir há alguns anos, mas dessa vez decidi ir até o final.
      Beijo! =D

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  2. "O que Foucault demonstra aqui é que a prisão não é algo distante de nós, como muitas vezes imaginamos, e que as mesmas técnicas utilizadas para disciplinar os presos são aplicadas também sobre nós durante toda a nossa vida. "
    Muito bom!
    O importante é perceber essa análise de relações de poder que nos constrói diariamente mesmo!
    Adoro tudo o que Foucault já escreveu!
    Foi muito bom ler essa resenha!!
    Bjs, Lu
    http://resenhasdalu.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Luiza!
      Que bom que você gostou da resenha. Você já leu o que de Foucault?
      Beijo!

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  3. Olá Eduarda, realmente concordo com você! Li para a Faculdade este livro e realmente achei ele pesado com uma amplitude de conhecimentos prévios teóricos. Apesar disto, ele é uma ótima leitura. Porém não gosto muito deste, pois quando li sentia me sufocando com tanta informações sobre os temas abordados.
    Ótima resenha!
    Desejo ótimas leituras para você!
    Beijo,
    Jéssica, d´O Feminino dos livros. (www.ofemininodoslivros.blogspot.com.br)

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    1. Te entendo completamente, Jéssica. Foucault realmente sufoca com tanta informação e tanta exigência de conhecimento prévio. Tanto que quero ler outros livros dele, mas vou dar um tempinho.
      Um beijo e obrigada! ; )

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  4. Esse livro foi muito importante em minha formação como psicóloga, utilizei até mesmo no meu TCC. Excelente dica, super indico esse livro também.

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    1. Eu não sabia que psicólogos também estudavam Vigiar e Punir. Qual foi o tema do seu TCC?
      Beijo! ^_^

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  5. Bom dia,
    O que você poderia me dizer sobre a questão que envolve os estudos de linguagens como por exemplo a semiótica, justamente pelo fato de que ele analisa a dinâmica das arquiteturas para que efetivamente se pudesse haver controle. Ademilson (EE Prof. Alício Araújo)

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