terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón



Cemitério dos Livros Esquecidos #1

Título: A Sombra do Vento
Título original: La Sombra del Viento
Escritor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Objetiva
Ano de Lançamento: 2001

A história tem início no aniversário de 11 anos de Daniel Sempere. Ele está triste porque já não consegue lembrar o rosto de sua mãe, falecida alguns anos antes. Seu pai, então, o leva ao Cemitério dos Livros Esquecidos, uma enorme biblioteca que contém uma quantidade absurda de livros, a maioria deles bastante raros ou há muito tempo esquecidos, e permite que Daniel escolha apenas um livro para levar para casa. A biblioteca já é, por si só, um personagem. Ela é repleta de escadarias e tem estantes tão sinuosas que alguém pode esconder um
livro e este nunca mais ser encontrado. Confesso que essa biblioteca constantemente me remetia ao labirinto de Creta, apesar de nada parecido com um Minotauro ter sido vislumbrando por qualquer dos frequentadores ; )

Daniel escolhe um romance intitulado A Sombra do Vento, de Julián Carax, um escritor obscuro do qual quase ninguém ouviu falar. Daniel é, então, envolvido pelos mistérios que cercam a vida de Carax e passa a investigar a história desse peculiar escritor. Nós, leitores, só conhecemos da história de Carax o que Daniel conhece e descobrimos com ele, aos poucos, o quão fascinante é a verdade. A Sombra do Vento nunca deixa de surpreender e a cada esquina que Daniel vira, encontramos um personagem fascinante e único: a enigmática Nuria Monfort, que mais parece uma princesa aprisionada em uma torre por forças invisíveis, o implacável Fumero, que muito me lembrou o Javert de “Os Miseráveis”, o engraçadíssimo Fermín Romero de Torres, com seu passado desconhecido e seu nome de toureiro e a sedutora Beatriz Aguilar, sem contar os inúmeros fantasmas das pessoas que já se foram, mas que, como poeticamente coloca Zafón, permanecem vivas por ainda estarem na memória de alguém.

A Sombra do Vento é um daqueles livros que captam a atenção do leitor do começo ao fim, já que o ritmo dos acontecimentos é frenético e a investigação está sempre levando a fatos cada vez mais surpreendentes. Juntar todas as peças do quebra-cabeças no final do livro é uma experiência quase catártica e é um ótimo exercício de imaginação descobrir o que conseguimos deduzir corretamente. Além disso, a história de Daniel tem muitos pontos em comum com a história do próprio Carax, o que torna a leitura ainda mais interessante. Vemos em Beatriz Aguilar uma Penélope Aldaya renascida e em Daniel um Carax que ainda não sofreu as marcas da vida. Daniel representa os eternos recomeços, uma oportunidade de reconstrução da história de Carax sem os erros, a infelicidade e a tragédia.

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Ler A Sombra do Vento é ser imediatamente transportado para uma Barcelona de sonhos, que está sempre envolta em mistério, tragédia e um toque de fantasia. Eu tive a oportunidade de conhecer o bairro gótico de Barcelona e lá eu tive aquela sensação ao mesmo tempo familiar e estranha de que naquele lugar ficaram gravadas as marcas das muitas vidas que lá passaram. Alguém já sentiu isso? É como se do lugar emanasse algo mais. A Sombra do Vento me remeteu exatamente a esse sentimento arrebatador do bairro gótico. Poucos escritores conseguem fazer com que o leitor sinta que é parte daquele mundo e daquele cenário, e Zafón é um desses poucos talentos. Nos sentimos tão parte daquela realidade que sequer questionamos se algo é ou não possível; simplesmente lemos e acreditamos. E as impressões que a leitura causam são tão fortes que levamos aqueles personagens, aquela história e aquelas sensações dentro de nós por muito tempo.

Outro ponto que merece destaque em A Sombra do Vento é o fato de que Zafón não tem medo de expor a feiura do ser humano, a injustiça da vida e a complexidade da personalidade humana. Ao contrário dos contos de fada, nem sempre as coisas terminam bem, mesmo para pessoas boas, e Zafón não tem medo de desagradar seu leitor ao reproduzir em seu livro o que constantemente acontece na própria vida. Fumero é um indivíduo sádico, cruel e profundamente atormentado, mas ainda assim conseguimos sentir pena dele em alguns momentos. O relojoeiro da rua de Daniel é uma pessoa maravilhosa, mas é preso e torturado apenas por ser um travesti. Fermín mostra em suas costas as marcas da ditadura espanhola. Clara Barceló é uma mulher lindíssima, mas se revela completamente infeliz. E nada é escrito apenas com a intenção de chocar, já que aquela é, de fato, a realidade dessas pessoas.

A linguagem de Zafón é extramente bela, poética e tocante. As condições climáticas são constantemente utilizadas para simbolizar os sentimentos de Daniel e a sensação que temos a de que Barcelona o compreende e o acolhe. A relação entre Daniel e seu pai é uma das mais lindas que já vi e é responsável pelo que, pelo menos para mim, é o momento mais bonito do livro.    

Não há dúvida de que A Sombra do Vento é uma brilhante literatura de ficção, capaz de agradar leitores de várias culturas, faixas etárias e gêneros diferentes. É para ler sonhando de olhos abertos.

Nota no skoob: 5 de 5.






2 comentários:

  1. Você traduziu as minhas sensações ao ler A sombra do vento. Leitura fantastica!

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    1. Até hoje não conheci ninguém que não tenha gostado desse livro, Andreia. Maravilhoso!
      Beijo! ^_^

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